A CARIOCA, de Pedro Américo
O nu feminino que foi barrado na Corte e seus congêneres europeus

Raul Mendes Silva


Pedro Américo, A Carioca, óleo sobre tela, 208 x 135 cm,
1882, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

 

Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905) que passou para a história da arte brasileira conhecido simplesmente como Pedro Américo, foi um menino prodígio que nasceu em Areias, PE. Era filho e neto de musicistas, o que em parte pode explicar seu pendor inato para a pintura. Desde a infância manifestou sua precocidade, escrevendo, desenhando, cantando no coro da sua cidade. Ainda criança, com menos de dez anos, seu talento artístico foi reconhecido por uma missão científica europeia, que passava pela região. Autorizado pelo pai, acompanhou o grupo para documentar com desenhos as paisagens, a fauna e a flora.

Aos onze anos chegou ao Rio de Janeiro, para estudar no prestigioso Colégio Dom Pedro II e depois na Academia Imperial de Belas Artes, onde já se impôs como um excelente aluno, de grande futuro. Sua fama rapidamente chegou ao conhecimento da corte e o próprio Imperador Dom Pedro II, um amante das artes e mecenas dedicado, lhe concedeu uma pensão para estudar em Paris - o que representava o sonho de todo o jovem artista - onde permaneceu por cinco anos. Na época, para se tornar um pintor ou escultor consagrado, era indispensável passar por Paris e Roma, conhecer os grandes clássicos e os principais museus de arte locais.

Em 1859, tinha Pedro Américo apenas dezesseis anos, matriculou-se na École de Beaux Arts e frequentou o ateliê de Dominique Ingres, pintor neoclássico que tinha um estilo forte e pessoal, que muito o influenciaria. Não se limitou a este aprendizado e estudou também com Cogniet e Horace Vernet. Mas seu talento multi-facetado o levou igualmente a aprofundar-se na filosofia, arqueologia e física, tornando-se aluno e amigo de professores e de cientistas.

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A tradição de aulas de desenho acadêmico do nu, que veio da Europa,  chegou ao Brasil quando o professor e pintor Manoel Dias de Oliveira, o Brasiliense (1763-1837) abriu no Rio de Janeiro, em 1800, um ateliê de desenho e pintura com essa finalidade. A chegada da Missão Francesa (1816) trouxe a estética neoclássica e instituiu a aula de desenho de nu como disciplina acadêmica, à maneira do que se fazia no velho continente.

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Época vitoriana, Edward Poynter, Andromeda

 

A Inglaterra vitoriana do século 19 cultivou o gênero, mas de alguma forma mascarando a sexualidade, deixando sob um véu de dissimulação as manifestações da libido - as investigações de Freud só seriam popularizadas mais tarde. O assunto nos remete ao idioma inglês, que tem dois vocábulos para designar o nu. Quando se trata de nu considerado artístico, a pessoa está nua (nude); quando a obra pode causar embaraços pela sua exagerada  atenção à sexualidade, como no caso das reticências de D. Pedro II com A Carioca, considera-se que está naked (despida).

A este respeito escreveu Kenneth Clark, (The Nude: A Study in Ideal Form, tradução livre, do autor) “…O idioma inglês, pródigo e sofisticado, distingue entre despido (naked) e nu (nude). Estar despido significa estar sem nossas roupas, e a palavra envolve o constrangimento que a maioria experimenta em tal situação. Por outro lado, a palavra ‘nu’, usada em contexto educado, não suscita desconforto. Neste caso, a  imagem vaga que se projeta no espírito não corresponde a um corpo encolhido e sem defesa, mas sim a um corpo equilibrado, saudável e confiante: um corpo re-feito. De fato, esta palavra foi introduzida em nosso vocabulário pelos críticos do início do século 18, para  convencer os ingleses (então ignorantes em matérias de arte) que naqueles países onde a escultura e a pintura eram praticados como mereciam, o corpo humano nu era o principal tema da arte.”


Época vitoriana, William Etty, Iphigenia

 

Apesar de sua atitude contra a suposta licenciosidade, os ingleses da sociedade vitoriana cultivaram um erotismo contido, com elegante moldura, o qual está igualmente presente na sua literatura romântica. 

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Desde o início do século 19, entre os europeus estava em moda a cultura do romantismo, que buscava inspiração na figura feminina ideal, aparentemente deslocada da olhar sensual. Entre os românticos, um motivo de inspiração veio do orientalismo, aqui referido ao Oriente Médio (não ao Extremo Oriente) habitado por gente árabe, considerada preconceituosamente como lasciva, preguiçosa e hedonista. Em tais estereótipos, as mulheres apresentadas pelos orientalistas estão muitas vezes despidas, frequentam banhos turcos ou vivem em haréns.

Esta visão ficou sobretudo acentuada após as incursões dos exércitos inglês e napoleônico, que pilharam as obras de arte que encontraram, desde o norte de África até aos confins da Ásia. Sem estas aventuras expansionistas,  grandes museus da Europa não teriam a metade de seus acervos atuais.


Pedro Américo, A fala do Trono, 1872,
Museu Imperial, Petrópolis, RJ. O vestuário
solene do Imperador, com seus exageros de
colorido e exuberância, faziam dele uma figura
pop entre os monarcas do seu tempo.

 

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Como bolsista, Pedro Américo tinha como obrigação realizar obras que justificassem os recursos públicos que lhe eram enviados. Sua opção pelo classicismo (todavia muito influenciado pelo romantismo europeu) o levou a pintar nus. Foi neste cenário que decidiu executar, entre 1862 – 63, A Carioca, uma incursão ousada num gênero dominado por grandes mestres, que se centravam nas temáticas tradicionais, confinadas aos nus da história grecorromana, mitológicos, bíblicos ou orientalistas. Em 1865 (o pintor residia então em Florença) Pedro enviou a tela para a 17ª Exposição Geral de Belas Artes, que se realizava anualmente no Rio de Janeiro, onde a pintura recebeu Medalha de Ouro. Este prêmio causou satisfação ao artista, que decidiu oferecer a tela para o acervo de Dom Pedro II. Porém, o Mordomo-mor da Casa Imperial, Paulo Barbosa (que era também deputado pela província de Minas Gerais) retribuiu como uma notícia inesperada: a obra era por demais sensual, o nu não respeitava os cânones da arte clássica, enfim, estava barrada a entrada na coleção da Corte. De fato, A Carioca não se enquadrava na visão que o Imperador e seus próximos achavam conveniente para história oficial.

O episódio pode nos esclarecer sobre a evolução do conceito de obra licenciosa, lasciva, entre o Brasil de então e os dias atuais, porque hoje A Carioca parece mais uma capa de revista, num mundo em que sexualidade e erotismo se transformaram num gigantesco negócio capitalista, em âmbito planetário.

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Segundo informações da época, o modelo d’ A Carioca foi a esposa de um brasileiro, funcionário da embaixada em Paris. Porém, esta escolha não explica como a mesma mulher serviu de inspiração para figuras femininas que Pedro pintou em outros quadros, como os que se seguem, parecendo uma obsessão do artista.


Pedro Américo, Joana d’Arc, óleo sobre
tela, 229 x 156 cm, 1883, Museu Nacional
de Belas Artes, Rio de Janeiro

 


Pedro Américo, Joana d’Arc, óleo sobre tela, 229 x 156 cm, 1883,
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro



Pedro Américo, Voto de Heloísa, óleo
sobre tela, 150 x 105 cm, 1880,
Museu Nacional de Belas
Artes, Rio de Janeiro

 


Pedro Américo, Davi e Abisag, óleo sobre tela, 172 x 216 cm, 1879,
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

 

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Certamente desgostoso, Pedro levou a tela de volta para Florença e a ofereceu ao Rei da Prússia, Guilherme I, que aceitou o presente e condecorou o artista. Tempos depois, ainda inconformado, Pedro pintou uma réplica d’A Carioca, que enviou em 1882 para 27ª Exposição Geral de Belas Artes. Nem toda a crítica contemporânea foi generosa, pondo em dúvida o título, considerado inadequado, já que a figura não correspondia a nenhum arquétipo estético que pudesse se identificar com “a” mulher carioca.

Esta pintura passou mais tarde a integrar a Pinacoteca Imperial, cujo acervo, em grande parte, passou para o Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, onde a obra se encontra hoje.

Sob o ponto de vista estético, a obra tem uma clara influência do classicismo de Michelangelo, com desenho firme e anatomia vigorosa, prenunciando os artistas do maneirismo, como se vê na Capela Sistina, do Vaticano. 


Ticiano, Danae. Luz intensa sobre o nu, fundo
de penumbra e uma abertura para o exterior

 


Michelangelo, Deus e Adão, Capela Sistina



Michelangelo, a Sibilia délfica,
Capela Sistina

 

Na tela de Pedro Américo jorra água de uma vasilha, provavelmente uma alegoria mítica que se relaciona com o próprio título do quadro, já que “carioca” é também o nome de um rio da zona sul do Rio de Janeiro. Ao fundo, uma abertura para o horizonte de uma paisagem, recurso pictórico cultivado pelos renascentistas. O nu está iluminado de frente, mas o fundo permanece imerso na penumbra, ao gosto dos pintores venezianos, como Ticiano.

Como bom aluno do pintor francês Dominique Ingres, Pedro aliou-se ao gosto neoclássico dele na clara definição dos desenhos e na anatomia, além da tendência ao exotismo do modelo.


Dominque Ingres, O banho turco,
1862 (mulheres num harém)

 


Dominque Ingres, O banho

 


Dominque Ingres, A grande odalisca, 1814

 

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Pedro não teria despertado os maus humores da Corte se tivesse relacionado seu tema ao romantismo nacional, como fizeram alguns mestres seus contemporâneos. Para isso, teria de colocar em sua tela um título relacionado a um tema clássico; ou ao indianismo brasileiro, este uma espécie de equivalente estético que correspondia ao orientalismo dos europeus. No primeiro caso, estaria na linha recomendada pela Academia Imperial; no segundo, contribuiria para a imagem nacional que as elites brasileiras pretendiam imprimir à historiografia oficial, que valorizava o índio e o exotismo tropical (o próprio Imperador Dom Pedro II, em seu trajes de gala, se adornava com penas de aves das florestas tropicais). 

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No Brasil, alguns artistas retrataram nus com características indianistas (romantismo) como Victor Meireles, Rodolfo Amoedo, José Maria de Medeiros e Antonio Parreiras.


Antonio Parreiras, Iracema, 1909,
Museu de Arte de São Paulo

 


José Maria de Medeiros, Iracema, 1881, Museu
Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

 


Rodolfo Amoedo, Marabá, óleo sobre tela, 1882,
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

 


Victor Meireles, Moema, óleo sobre tela, 1863,
Museu de Arte de São Paulo

 

 

A inspiração clássica, caso d’ A Carioca, foi seguida, entre outros, por Zeferino da Costa e Oscar Pereira da Silva.

Nestes dois últimos trabalhos, a conotação sexual está tão explícita quanto n’ A Carioca, porém, a inserção temática na antiguidade clássica romana “enquadra” esteticamente as pinturas, desautorizando qualquer insinuação de erotismo “vulgar”.


Zeferino da Costa, A pompeana,
1876, Museu Nacional de Belas Artes

 


Oscar Pereira da Silva,
Escrava romana, 1882,
Pinacoteca do Estado de São
Paulo. Provavelmente achando
que incrementava o erotismo da
obra, na placa sobre o peito, o
pintor informou: “ Virgem...
nascida em...”

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Esquecendo a polêmica em torno do quadro, poderemos concluir, como o crítico da época Gonzaga Duque: “Nesse fundo carregado, caloroso...a formosa figura sobressai, imponente, grandiosa, fantástica...Assim o seu olhar é mais ardente, os seus cabelos mais negros, a sua boca mais vermelha, o seu corpo mais lúbrico, o sítio em que está mais silencioso e encantado.”

Será que o Paulo Barbosa, censor e Mordomo-mór do Palácio, afinal tinha razão?

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Consultas
Oliveira, Claudia de, e Nery, Laura, A carioca, de Pedro Américo: alegoria e erotismo no imaginário oitocentista brasileiro, in: www.ufrs.br/gthistoriaculturalrs/laura_nery...
Teixeira Leite, José Roberto, Dicionário Crítico da História da Pintura no Brasil, Artelivre, 1986, Rio de Janeiro, pág. 106
Pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Americo

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