Ender, pintor da Missão Austríaca (1817-1818)
Texto publicado em EducaÇÃo On Line

Raul Mendes Silva


Ender, Fábrica de pólvora

Thomas Ender  chegou ao Rio de Janeiro a bordo do Áustria , no dia 14 de julho de 1817, como integrante da comitiva que acompanhava a Arquiduquesa Leopoldina, filha do  imperador austríaco Francisco I. O casamento era muito conveniente para o Brasil e selava a aliança com uma corte poderosa.  Além de Thomas vieram dois pintores, Johann Buchberger e Franz Früebeck, e alguns cientistas, entre os quais Von Martius e Spix. Frühbeck fizera a viagem a bordo da Fragata D. João VI, que estava transportando Dona Leopoldina. São de sua autoria doze guaches e um pequeno álbum de vinte e dois desenhos, retratando a vida a bordo, paisagens da costa brasileira e logradouros do Rio de Janeiro. Têm pouco valor artístico, mas algum interesse documental.

Durante seu período como colônia, o Brasil permanecera separado do resto do mundo por uma cortina de silêncio, imposta por Portugal por motivos estratégicos, para ocultar as riquezas locais. Mas, tão logo os portos brasileiros foram abertos a outras nações, numerosos viajantes passaram a visitar o país, principalmente por interesses comerciais, mas também por curiosidade e espírito de aventura.

Naquela data, o vienense Ender tinha 23 anos. Fora um artista precoce, conseguindo se matricular na Academia de Belas Artes de Viena aos 12. De origem pobre, pôde seguir a carreira de pintor porque à noite tocava violino num café à beira do rio Reno, local elegante da capital austríaca. Meses antes da viagem recebera o primeiro prêmio de Pintura de Paisagem, atribuído anualmente pela Academia de Belas Artes daquela capital, o que lhe proporcionou a estima de Metternich que era, então, o líder do Império e um dos homens mais poderosos da Europa.

 


Ender, Rio de Janeiro

Ender executou no Brasil mais de mil desenhos e aquarelas conhecidos, todos de elevada qualidade técnica e artística. Cerca de oitocentos trabalhos desta série estão conservados em Viena, fato que só foi conhecido no Brasil nos anos cinquenta do séc. 20. Obras de extrema sensibilidade, documentam visitas de Ender, Spix e Martius ao Rio de Janeiro e arredores, ao Vale do Paraíba, à região de São Paulo, além de uma incursão pelo interior, até Minas Gerais.  

A obra brasileira de Thomas ensejou diversas abordagens, sendo a mais abrangente Viagens ao Brasil nas Aquarelas de Thomas Ender, em 3 volumes, publicada em 2001, com centenas de reproduções e textos de Júlio Bandeira e Robert Wagner (curador do Departamento de Gravura da Academia de Belas Artes de Viena).

A missão pessoal de Ender era documentar, o mais possível, o novo país que visitava. Infelizmente para nós, o artista adoeceu e teve que regressar à Europa, no dia 1º de junho de 1818. Da sua passagem pelo Brasil, em dez meses e meio, conhecemos quase novecentos desenhos e aquarelas, o que é uma cifra impressionante, mesmo para um jovem artista. Na sua condição de viajante, em condições precárias, seria difícil executar pinturas a óleo, que exigiam mais tempo e demoravam umas três semanas para secar. Os recursos simples da aquarela e sua secagem imediata, além dos lápis e um bloco de papel, eram a solução ideal para os artistas viajantes.

As descobertas que levariam ao domínio da fotografia ainda iriam demorar mais uns vinte anos. Os olhos de um artista eram, na época, a única maneira de fixar as imagens de pessoas e lugares. Desenhar e pintar sem descanso tornou-se uma obcessão para o jovem Thomas, que não queria desiludir seus protetores, quando regressasse à terra natal. Curiosamente, ao contrário do francês Jean Baptiste Debret, não documentou os suplícios impostos aos servos e desfavorecidos, nem se preocupou em reproduzir a extrema pobreza. Não esqueçamos que o artista francês era um homem maduro e sofrido, e o vienense um jovem de olhos no futuro.


Ender, retrato de F. Amerling

As obras de Ender no Brasil mostram belas paisagens e os costumes exóticos, mas passam ao largo das crueldades da escravidão. Não esqueceu de reproduzir o local onde vivia a corte e pintou o Palácio de São Cristovão, talvez para tranquilizar a família do Imperador Francisco I, quanto ao futuro lar da filha.

É oportuno lembrar que a Europa artística vivia um clima de romantismo, movimento que valorizava a pintura de paisagens, o que não acontecia com seu antecessor, o neoclassicismo. Ender veio com alma de romântico e ficou encantado com os amplos espaços e florestas, que documentou minuciosamente, embora em aquarelas espontâneas e de muita qualidade.  Mas surpreendeu-se, igualmente, com o festival de etnias que o Rio de Janeiro lhe ofereceu, com seus tipos humanos de brancos abastados, brancos pobres e negros desprotegidos, estes em seus afazeres de operários, vendedores e pequenos comerciantes. Utilizando jogos de luzes e sombras, mostrou aglomerações em torno de edificações públicas, como em “Chafariz do Terreiro do Paço”.

Quando voltou à Europa, Ender trabalhou na Itália (1819-22) com a proteção de Metternich, para o qual executou 12 paisagens da Viena imperial, seguindo depois para uma permanência de alguns meses em Paris. De novo na pátria, seu prestígio estava firmado, sendo nomeado artista particular do irmão de Francisco I, o Arquiduque Johann. Foi encarregado de pintar, em aquarelas, centenas de paisagens austríacas. Quando faleceu, com 82 anos, era professor da Academia de Belas Artes de Viena e desfrutava de conforto e riqueza.

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