ESTILO EGÍPCIO

Raul Mendes Silva

Egito
Cairo. Esfinge e pirâmide de Quéfren

Sumário
Localização no tempo e no espaço
Características principais
Elementos decorativos
Personalidades associadas ao estilo
Influências fora do Egito
Informações complementares
Principais museus
Fontes de estudo

 

Localização no tempo e no espaço
Nenhum outro estilo artístico durou tanto na história das artes. Iniciou-se cerca de 5000 AC até aprox. 30 AC. Ao contrário dos outros estilos da antiguidade oriental, que mesclavam origens diversas, o egípcio foi totalmente original (até ao período ptolemaico, já no período da decadência) oferecendo uma extensa coleção de obras de arte, ao longo de 5 mil anos. Durante milênios, os egípcios ficaram relativamente ao abrigo de intervenções externas, verificando-se uma unidade intrínseca nas suas manifestações estéticas. Fazem parte dessa herança obras como monumentos, joias, pinturas, esculturas, hieróglifos, mobiliário, sarcófagos, máscaras mortuárias, nemes (peça de vestuário que cobria a cabeça) que expressam religiosidade e permanecem, muitas delas, ainda envoltas em mistério.

Máscara de ouro da múmia do faraó Tutankhamon portando o nemes
Máscara de ouro da múmia do faraó
Tutankhamon portando o nemes.

Pirâmides, a partir da esq: Mykerinos, Quéfren e Quéops
Pirâmides, a partir da esq: Mykerinos,
Quéfren e Quéops

Pirâmides de Giza
Pirâmides de Giza

Grupo de esfinges em Tebas
Grupo de esfinges em Tebas

Bracelete em coral e materiais preciosos
Bracelete em coral e materiais preciosos

Bracelete decorado com besouros
Bracelete decorado com besouros

Aneis com ouro e jade
Aneis com ouro e jade

Casal real, 18ª dinastia
Casal real, 18ª dinastia

O faraó Thoutmosis III representado como esfinge, 18ª dinastia
O faraó Thoutmosis III representado como esfinge, 18ª dinastia

A arte egípcia dominou desde a costa do mediterrâneo à primeira catarata de Assuã, acompanhando o percurso do vale em torno do Rio Nilo, até à Etiópia. Entretanto, em sua longa história, sua influência se espalhou especialmente pela Síria, Líbano e Armênia.

Características principais
A arte egípcia é coletiva, sendo impossível determinar a autoria de cada obra. Os ocidentais ficaram fascinados, principalmente, por estas características da arte egípcia: sua intimidade com o misterioso e sagrado; seu culto aos mortos; e sua perícia na arte da mumificação.

Rei da 11ª dinastia, calcário, Museu do Louvre, Paris
Rei da 11ª dinastia, calcário, Museu do Louvre, Paris

Oukhotep e sua família, granito, 12ª dinastia, Museu do Cairo
Oukhotep e sua família, granito, 12ª dinastia, Museu do Cairo

Rei Sesostris (à dir.) com o deus Ptah. Desenho em coluna, Karnak, 12ª dinastia, Museu do Cairo
Rei Sesostris (à dir.) com o deus Ptah. Desenho
em coluna, Karnak, 12ª dinastia, Museu do Cairo

Rei Sesostris (à dir.) com outra indumentária, e o deus Horus, 12ª dinastia, Museu do Cairo
Rei Sesostris (à dir.) com outra indumentária,
e o deus Horus, 12ª dinastia, Museu do Cairo

Religião: o sol (Ammonn) representava a suprema divindade. Todas as manifestações artísticas eram regidas pela religiosidade, fidelidade aos deuses, grandiosidade monumental, dominação e hierarquia a partir dos faraós (que eram reis, considerados seres divinos), com estilização nas representações de pessoas e objetos, e no culto aos mortos.

Adoração do Sol
Adoração do Sol

O rei Aménophis IV, a rainha Néfertiti e 3 princesas levam oferendas ao Sol (18ª dinastia)
O rei Aménophis IV, a rainha Néfertiti e 3 princesas levam oferendas ao Sol (18ª dinastia)

Deusa Bastet em forma de felino
Deusa Bastet em forma de felino

Ibis sagrada
Ibis sagrada

Os egípcios guardavam profundos conhecimentos de mumificação de corpos humanos, sendo a existência após a morte a preocupação dominante dos artistas. Representaram os deuses, os humanos e o mundo ao seu redor, usando de fina observação, sem concessões a adornos extemporâneos. Além dos soberanos (faraós) o poder se estendia a uma pequena classe dominante, constituída por áulicos da corte e alguns comerciantes. Grande parte da mão-de-obra era escrava, o que explica a construção de obras públicas tão faustosas e imponentes.

Tampa de múmia egípcia e seu sarcófago em madeira
Tampa de múmia egípcia e seu sarcófago em madeira

Templos: entradas monumentais, simétricas, adornadas com colunas ou obeliscos, encimados com acabamento de bronze dourado. A grandiosidade era obtida a partir da simetria e do geometrismo nas construções e na decoração, sendo os tetos sustentados por filas de colunas. Em Karnak, as colunas do meio chegam a 23 metros de altura. Existia uma sucessão de salas, que iam ficando mais escuras, menos robustas e com a altura diminuída (abaixando-se os tetos e elevando-se o solo). A sala principal dava acesso a um santuário (naos) onde era sepultada a divindade, o faraó. Os interiores se arejavam através de dutos. As pirâmides, na verdade, eram mausoléus dedicados aos reis. Alguns templos foram construídos totalmente em subterrâneos.

Poder: no antigo Egito, a autoridade suprema era o faraó, que correspondia ao título de rei nas monarquias, porém com mais poder, e gozando do estatuto de divindade. Os egípcios quase não empregavam o termo para se referir aos seus soberanos. Porém, o mesmo foi utilizado e popularizado pelo livro do Êxodo, na Bíblia, passando a ser usado correntemente pelos historiadores. Curiosamente, ao contrário do que sucedia em outras civilizações antigas, a condição feminina era respeitada. No Egito, séculos antes de chegar o islamismo, as mulheres, fossem esposas dos reis, sacerdotisas, amantes ou humildes trabalhadoras, eram consideradas iguais aos homens, tendo oportunidades semelhantes a eles.

Faraó com a esposa
Faraó com a esposa

Frente de um cofre real
Frente de um cofre real

Carro do casal real
Carro do casal real

Câmara funerária no interior de uma pirâmide
Câmara funerária no interior de uma pirâmide

Cadeiral usado em cerimônias
Cadeiral usado em cerimônias

Trono do rei
Trono do rei

Travesseiro em marfim, peça requintada, destinada às elites
Travesseiro em marfim, peça requintada, destinada às elites

Rei Yunye e rainha
Rei Yunye e rainha

Rei Menkaure e rainha c. 2500 AC
Rei Menkaure e rainha c. 2500 AC

Princesa, quartzo com pátina, séc. 14º AC
Princesa, quartzo com pátina, séc. 14º AC

O jovem faraó Tutankhamon
O jovem faraó Tutankhamon

Rainha e rei voltam do terraço, acompanhados por 3 sacerdotes que portam um cofre sagrado. Época do domínio romano
Rainha e rei voltam do terraço, acompanhados por 3 sacerdotes
que portam um cofre sagrado. Época do domínio romano

Banquete, acompanhado de música, 26ª dinastia
Banquete, acompanhado de música, 26ª dinastia

Serviçais do palácio real, 18ª dinastia
Serviçais do palácio real, 18ª dinastia

Moça de família poderosa, pintura, 12ª dinastia, Museu do Cairo
Moça de família poderosa, pintura, 12ª dinastia, Museu do Cairo

Toalete da esposa do rei Montouhotep, calcário, 11ª dinastia, Museu do Cairo
Toalete da esposa do rei Montouhotep, calcário,
11ª dinastia, Museu do Cairo

O sistema econômico do país, concentrando o poder em poucas pessoas ligadas à corte, não permitiu o surgimento de uma classe com as características empreendedoras da burguesia ocidental no Renascimento. O domínio da vasta massa humana, integrada por escravos e trabalhadores semi-escravizados, era exercido pelos soberanos, além da mencionada pequena casta, ligada ao palácio real. 

Sacerdote, Novo Império
Sacerdote, Novo Império

Nobre e esposa, 19ª dinastia
Nobre e esposa, 19ª dinastia

À dir: Intendente das Finanças do reino com a esposa, 18ª dinastia
À dir: Intendente das Finanças do
reino com a esposa, 18ª dinastia

Materiais: granito, calcário, barro, madeira, com uso abundante de tijolos, cozidos ao sol inclemente. Por vezes, as paredes de tijolos eram revestidas de massa dura, com que modelavam os baixo-relevos.

Baixo-relevos e esculturas: apresentam uniformidade de concepções, geralmente mostrando reis e deuses. Os reis representam-se sentados, com as mãos sobre os joelhos. A cabeça aparece de perfil, mas o torso é frontal e os olhos estão sempre de frente. As estátuas são mostradas em posição vertical, sem qualquer inclinação. Nos períodos mais recentes, algumas mostram certo naturalismo. Os olhos eram confecionados em bronze, quartzo, ou outro material, para depois se colocarem na estátua, conferindo-lhe realismo. Os caixões eram de madeira, revestida de gesso pintado.

Habitações: eram construídas em tijolos e madeira. No exterior, ao fundo, havia uma escada que levava a uma varanda, no primeiro piso. O calor escaldante era mitigado por aberturas verticais, que iam do teto ao chão. As entradas se faziam por uma porta, que era encimada por uma viga decorada com frisos. A flor do lótus, estilizada, e efeitos geométricos, são recorrentes. A estilização estende-se a diversas formas de animais, mesmo a insetos.

Mobiliário: compreendia especialmente tamboretes, cadeiras, mesas e camas. Uma infinidade de pequenos objetos decorativos eram utilizados no arranjo de ambientes, na toalete, ou como adereços de roupas. Amuletos e joias, usadas pelos poderosos, se fabricavam com extrema riqueza e variedade. A arte do vidro atingira grande perfeição.

Ushabtis: são pequenas figuras esculpidas, destinadas ao culto dos mortos, podendo ser em metal, madeira, pedra ou cerâmica. Foram produzidas em grande quantidade entre 2.000 – 200 AC, sendo encontradas sozinhas e em pequenos ou grandes grupos, tanto em mausoléus como em habitações.

Ushabtis
Ushabtis

O estilo Retour d’ Egypte (Regresso do Egito): No final do séc. 18 esta verdadeira “mania”  decorativa invadiu as artes francesas, daí se espalhando por outros países, sobretudo pela Rússia dos czares. Napoleão Bonaparte (1769-1821) quando ainda não era imperador,  comandou as forças militares francesas que invadiram o Egito, nos anos 1798 e seguinte o que, aliás, se revelou um fracasso estratégico. Entretanto, quando as tropas voltaram, trouxeram inúmeras obras de arte e souvenirs, que encantaram os franceses, pelo seu exotismo e originalidade. As artes decorativas absorveram muitos elementos egípcios, como joias, motivos zoomórficos, colunas, capiteis, cabeças recobertas com nêmes (como se viu, são espécie de lenços para cobrir os cabelos, típicos da arte egípcia), mobiliário, esfinges, candelabros e inúmeros outros itens. Curiosamente, esta febre decorativa ajudou a encobrir para a sociedade o fiasco das expedições militares.

Castiçais ao gosto Retour d’Egypte
Castiçais ao gosto Retour d’Egypte

O estilo Retour d’ Egypte firmou-se como um ramo do Estilo Império, por sua vez inspirado no Neoclassicismo. 


Elementos decorativos
 (segundo A. Racinet, Polychromatic Ornament, publicado por Henry Sotheran and Co., Londres, 1873).

Elementos decorativos

Elementos decorativos

 

Personalidades associadas ao estilo
Uma figura popularizada ao longo dos tempos foi o faraó Tutankhamon, da 8ª Dinastia. Morreu aos 19 anos e sua notoriedade contemporânea se deve principalmente ao fato de, em 1922, o arqueólogo inglês H. Carter ter descoberto no Vale dos Reis, em Tebas, seu mausoléu repleto de obras de arte, de ouro e de joias, constituindo-se num dos mais ricos tesouros arqueológicos da história.

Faraó Tutankhamon, máscara mortuária em ouro
Faraó Tutankhamon, máscara mortuária em ouro

A rainha Nefertiti, esposa do faraó Amenófis IV (18ª Dinastia) foi imortalizada em um busto policromado que se encontra no Novo Museu, de Berlim; e em outro busto, em quartzo rosa, do Museu do Cairo. Porque razão sua figura e seu rosto despertaram em nossa época tanto interesse, entre estudiosos e curiosos? Provavelmente por causa da sua magreza, que faz lembrar as esqueléticas modelos das passarelas da atualidade...

Rainha Nefertiti, 1350 AC, Novo Museu, Berlim
Rainha Nefertiti, 1350 AC, Novo Museu, Berlim

Rainha Nefertiti
Rainha Nefertiti

Quanto à rainha Cleópatra que se tornou, além de um fenômeno histórico, um mito romântico, é na verdade Cleópatra VII, da Dinastia Ptolmaica. Governou entre 51 e 30 AC, tendo sido celebrizada como fêmme fatale, por seduzir os líderes romanos Júlio César e Marco Antônio, acabando ela própria por ter um fim trágico, digno de libreto de ópera.

Cleópatra, Altes Museum, Berlim
Cleópatra, Altes Museum, Berlim

Jean Léon Gérôme (1824-1904) Cleópatra e Julio César, óleo, 1866, visão operística da rainha egípcia
Jean Léon Gérôme (1824-1904) Cleópatra e Julio César,
óleo, 1866, visão operística da rainha egípcia

Influências no exterior
No início do renascimento, o conhecimento sobre a arte egípcia era limitado. As conquistas romanas haviam subtraído inúmeros objetos daquele país, nomeadamente obeliscos e placas com hieróglifos. Mas os estudos científicos sobre aquele império ainda não tinham começado. Além disso, os renascentistas estavam mais interessados no classicismo grego e romano.

O arquiteto italiano Giovanni Battista Piranesi (1720-78) utilizou de maneira não sistemática elementos egípcios na decoração do Caffé degli Inglesi (Café dos ingleses, em Roma, 1765). O pintor alemão neoclássico Anton Raphäel Mengs (1728-79), na Sala dos Papiros, recorreu à decoração egípcia no Vaticano, por volta de 1770.

Piranesi, decoração no Café dos Ingleses, em Roma, 1765
Piranesi, decoração no Café dos Ingleses, em Roma, 1765

A recuperação arqueológica de peças egípcias foi uma paixão de italianos e artistas de outras procedências, a partir do século 16. Mas somente na segunda metade do século 19 teve impacto nas decorações europeias, particularmente no estilo império, o qual teve uma derivação chamada Retour d’Égipte, antes mencionado. Também o neoclassicismo se inspirou, por vezes, nessa moda oriental.

Ainda no século 18, imagens retiradas da arte egípcia apareceram no rococó como elementos exóticos. Neste século publicaram-se obras com descrições pormenorizadas, uma delas baseada em peças que o imperador romano Publius Aelius Hadrianus (Adriano, 76-138) trouxera de seus saques no Oriente Médio, além de obras descobertas nas ruínas de Roma, mostradas em publicação francesa: Recueil d’antiquités égyptiennes, étrusques, grecques, romaines et gauloises (Levantamento de antiguidades egípcias, etruscas, gregas, romanas e gaulesas, em 7 volumes, publicado entre 1752-67).

No Egito, a campanha dos exércitos napoleônicos (franceses) foi acompanhada de pilhagens de obras artísticas. Em seguida, foram os saques das tropas inglesas, a partir da Batalha do Nilo (1798). O estilo egípcio foi levado para os EUA, no século 19, pelo arquiteto John Haviland (1792-1852) que, seguindo essa estética, construiu a Prisão Estadual de New Jersey. Em Holywood ergueu-se um imenso Teatro Egípcio (1922). É desta época o art déco, moda que usou recorrentemente motivos egípcios.

Museu de Krasnoyarsk, Sibéria, art déco russa com elementos egípcios
Museu de Krasnoyarsk, Sibéria, art déco russa com elementos egípcios

Na Place Concorde, em Paris, pode admirar-se um obelisco de pedra gigantesco, de 22,83 de altura e pesando 230 toneladas, oferecido pelo vice-rei do Egito ao monarca francês Louis Philippe I (1773-1850). Esta obra monumental adornava a entrada do Templo de Amon e foi instalada em Paris, em 1836. Os obeliscos da antiguidade eram, via de regra, esculpidos em um só bloco de pedra.

O obelisco egípcio de 3.300 anos de existência, que marcava a entrada do Palácio de Luxor, está na Place de la Concorde, em Paris
O obelisco egípcio de 3.300 anos de existência,
que marcava a entrada do Palácio de Luxor,
está na Place de la Concorde, em Paris

Hoje alguns museus do mundo, como o British Museum (Londres), o Museu do Louvre (Paris) e outros adiante citados, exibem, além de fantásticas coleções gregas e romanas, também preciosidades egípcias. No Egito, o Museu do Cairo, o de Luxor e outros no país, conseguiram colecionar peças muito importantes, que felizmente foram poupadas dos saques ocidentais.


Informações complementares
DINASTIAS.  Para orientação sobre os períodos históricos do Egito antigo se utilizam as dinastias como referência. Há sérias controvérsias sobre muitas datas, que devem ser consideradas aproximativas, sobretudo nas épocas mais remotas. Contudo, a partir da 25ª Dinastia, as datações são precisas. Esta orientação é necessária para situar cronologicamente, ainda que de maneira precária, as obras de arte egípcias ao longo da história.

PERÍODOS HISTÓRICOS
Cada escola e cada grupo de arqueólogos introduziu sua própria datação, porém, em termos gerais, pode considerar-se a divisão da longa história da arte egípcia em seis largos períodos:

Antigo Império (5000 a 3100 AC). O Império teve duas capitais nesta época: Thinis e Memphis. Dinastias 1ª a 11ª.
Império Médio (3000 a 1600 AC). A capital foi Thebas, que chegou a ter 700 mil pessoas. O Império foi invadido por povos pastores, de origem semita. Dinastias 11ª a 17ª.

Novo Império (1600 a 1080 AC). Período de expansão econômica e militar, com prosperidade, quando são construídos monumentos como o templo de Karnak, de Luxor e o Palácio de Ramsés III, em Médinét-Habou. Dinastias 18ª a 20ª.

Baixa Época (1080 a 525 AC). Lutas internas acabam com o progresso social e refletem decadência nas artes. O território é invadido por povos guerreiros, persas e assírios. Dinastias 21ª a 26ª.

Período Saíta (525 a 332 AC). A capital é transferida para Saís. O país é praticamente governado por persas. A influência da arte grega se acentua. Em 332, Alexandre-o-Grande, da Macedônia, conquista o Egito e funda a cidade de Alexandria. Dinastia 26ª.

Período Ptolemaico (332 a 30 AC). Conquista do Egito por Alexandre-o-Grande. O primeiro governante foi Ptolomeu I, um ex-general do exército do conquistador. A arte egípcia praticamente desaparece. No final deste período, o país entra num período de dominação romana.

***

HIERÓGLIFOS. Uma das escritas do antigo Egito foram os hieróglifos, usados durante mais de 3 milênios, entre 3.300 AC e o século 3 DC. Trata-se de uma forma de comunicação em que sinais e figuras têm determinados significados, umas vezes independentes, outras servindo para combinações entre eles. Alguns podem ser reproduzidos foneticamente, à maneira do que sucede nos alfabetos que usamos. Um hieróglifo assume igualmente vários sentidos, dependendo do seu contexto. Durante séculos, os arqueólogos e egiptólogos consideravam essa linguagem como um quebra-cabeças indecifrável.

Escrita em hieróglifos
Escrita em hieróglifos

Como foi desvendado o significado dos hieróglifos?
Pedra de Roseta é o nome atribuído a um bloco de basalto, datado de 196 AC, no qual os antigos egípcios gravaram um texto real do soberano Ptolomeu V (205-180 AC). Em 1799, quando os exércitos franceses de Napoleão invadiram o Egito, encontraram a pedra na cidade de Roseta,  ao sul do país. Por sorte, as inscrições foram feitas em três escritas: em grego, em demócrito e em hieróglifos (egípcios). Esta circunstância permitiu que o egiptólogo francês, François Champollion (1790-1830), fizesse comparações entre os caracteres e decifrasse o significado dos hieróglifos. A descoberta foi publicada em 1824, em seu livro Précis du système hiéroglyphique (Apontamentos sobre o sistema dos hieróglifos).

Museu Britânico, Pedra de Roseta
Museu Britânico, Pedra de Roseta

Este foi o ponto de partida para os historiadores descobrirem os meandros daquela antiga escrita egípcia. Durante as incursões expansionistas ocidentais, a Pedra de Roseta foi parar em Londres, no British Museum, onde se encontra até hoje.

MÚMIAS. Os egípcios foram exímios na arte da mumificação, ou seja, em preservar cadáveres embalsamados através de procedimentos cirúrgicos e químicos. Múmia vem do latim mumia, originado do árabe mumiyya; e este deriva do persa mum (cera, betume, que era empregado para conservar os corpos). As múmias de pessoas ilustres, nomeadamente dos reis, eram guardadas em caixões, verdadeiras obras de arte, e por sua vez repletos de objetos de valor. A mumificação não foi um fenômeno exclusivo do Egito antigo, sendo constatada em numerosas civilizações ancestrais, inclusive em culturas pré-colombianas. Porém, naquele país, pode se dizer, atingiu a  perfeição.

REGRA DE OURO. A adoção de regras rígidas na figuração humana já existia na arte egípcia, antes de aparecer na Grécia. Isto explica por que, nas esculturas, a proporção entre as diversas partes do corpo é constante, seja em uma estátua colossal ou na menor imagem de um afresco. Seguindo um método, os artistas traçavam linhas horizontais e verticais, que lhes permitiam respeitar os cânones. A mesma consideração com a regra era observada quando reproduziam grupos.

Na arte egípcia, a unidade de medida era a palma da mão. Os ombros deveriam situar-se a 16 palmos a partir da base; toda a figura, da base do cabelo ao chão, deveria ter 18 palmos (a variedade de penteados e adornos da cabeça prejudicaria o cálculo). O rosto teria 2 palmos, e assim por diante.

Uma das principais características da arte egípcia é sua profunda ligação com a religiosidade, com o mundo do além e a vida após a morte. Tanto as pessoas comuns, como os faraós, assim como os próprios monumentos e as estátuas que os representavam, poderiam ser considerados divinos. Seu senso de ordem e hierarquia se traduzia em desenhos com poucas nuances, nos quais as cores ajudavam a criar uma atmosfera de equilíbrio. O próprio tamanho das figuras reproduzidas revelava a importância social da pessoa, ou deus. Logicamente, a representação dos soberanos fica sempre em evidência perante outros personagens humanos. Os deuses proeminentes são, igualmente, maiores que os de menor projeção.

Nos trabalhos artísticos, um dos suportes mais usados foi o papirus, antepassado do nosso papel, obtido a partir de um vegetal que existia no delta do Nilo. Após processado, nele se podia desenhar e escrever.

As cores têm uma força simbólica, sendo o amarelo usado para revelar o respeito pelo Rei Sol;  o vermelho, para  representar a força e o poder; o azul e o verde aludem à vida, especialmente ao Rio Nilo, de onde provinham os recursos alimentares.

Não se preocupavam com a perspectiva nas pinturas, mesmo assim conseguiram efeitos realistas. Felizmente o clima egípcio, extremamente seco, ajudou a excelência dos pigmentos e assegurou a sua perenidade. Existia uma forte razão para o cuidado em empregar bons materiais: os objetos e os monumentos eram projetados para a eternidade. Desta maneira, os artistas se preocupavam em enterrar nos mausoléus, junto com seus mortos, artefatos que iriam durar por muito tempo. Por conseguinte, as formas de arte também não deveriam ser modificadas segundo alguma moda ou tendência, sendo mais apreciadas aquelas obras que conseguiam fielmente reproduzir as mais antigas.

ARQUITETURA. As características da região do antigo Egito e adjacências condicionaram fortemente o desenvolvimento da sua arquitetura. Ao contrário do que aconteceu no Extremo Oriente, ali quase não havia árvores, o que levou os construtores a utilizar o tijolo com, ou sem cozimento, e a pedra. Desde o Antigo Reino, esta era reservada para o exterior dos templos e mausoléus; e o tijolo para as habitações e a construção de muralhas.

Os egípcios erguiam seus monumentos e sepulturas reais com os olhos na eternidade. A pedra representava um material resistente sendo, além disso, beneficiada pelo clima seco. O forte condicionamento religioso os levou a uma veneração constante de seus deuses, uns onipotentes, outros com papéis menos importantes nas cenas do seu Olimpo. O Rio Nilo e seu vale fértil, durante uns dez séculos, testemunharam o esplendor das civilizações mais poderosas de então. Suas realizações foram tão significativas, que monumentos como as pirâmides e a esfinge se contam entre os mais importantes de toda a história da humanidade.

A maioria das construções desapareceu, devido às intempéries e às enchentes periódicas. Felizmente, testemunhos importantes dessa civilização ficaram preservados, porque permaneceram enterrados e protegidos. Mesmo assim, os saqueadores exerceram uma ação destruidora, ou por simples vandalismo ou motivados pelo rico comércio de antiguidades. A atuação dos invasores ocidentais empobreceu dramaticamente a herança desse povo, drenando incontáveis tesouros para os museus e coleções ocidentais.

Coluna no templo de Hathor
Coluna no templo de Hathor

Capitel em forma de campânula
Capitel em forma de campânula

Capitel, Antigo Império
Capitel, Antigo Império

Coluna e capitel, Império Médio
Coluna e capitel, Império Médio

Capitel, época romana
Capitel, época romana

Sala hipóstila, templo de Karnak. As colunas do meio tinham 23 metros de altura
Sala hipóstila, templo de Karnak. As colunas do meio tinham 23 metros de altura

As construções mais importantes foram devotadas aos serviços religiosos, não se podendo esquecer também que os reis se proclamavam de origem divina. O clima e a segurança condicionaram a maneira de edificar, com portas e janelas geralmente estreitas em relação à suntuosidade dos monumentos. O arco já era utilizado na 4ª Dinastia, porém não se desenvolveu como elemento arquitetônico, ao contrário do que sucedeu no Ocidente. Isto obrigou os arquitetos a construir fortes paredes para sustentar os tetos planos, obrigando igualmente a se colocarem as colunas entre espaços menores. Muitas paredes e colunas foram decoradas com símbolos, que descreviam a vida dos faraós e glorificavam feitos bélicos.

Alguns monumentos permanecem hoje, sobrevivendo às agressões dos tempos. Perto do Cairo – 20 quilômetros - na planície onde está a necrópole de Giza, situam-se três pirâmides: Quéops (a maior), Quéfren e Mykerinos (a menor) além da grande esfinge. Foram construídas durante a 4ª Dinastia, mostrando o poder do estado e da religião seguida pelos faraós. Outro exemplo de grandeza é o complexo de Karnak, edificado na região de Luxor, que levou centenas de anos para ser concluído.

PINTURA. Como anteriormente se escreveu, foi graças ao clima seco que puderam chegar até nós pinturas do Egito antigo. Os artistas consideravam a morte como um acidente a caminho de uma existência extraterrena aprazível. Assim, as pinturas que acompanhariam os falecidos deveriam ser agradáveis à vista. Frequentemente, os desenhos indicavam procedimentos a seguir após a morte, e faziam alusão a acontecimentos vividos pelos falecidos.  A partir do Novo Reinado, era costume deixar no mausoléu um exemplar do Livro dos Mortos, uma espécie de manual para orientar o comportamento no Além.

Trecho do Livro dos mortos, séc. 10 AC
Trecho do Livro dos mortos, séc. 10 AC

ESCULTURA. Não eram apenas as pinturas que deviam obedecer a cânones estéticos, algo semelhante sucedia com as esculturas. As fêmeas tinham cores mais claras que os machos. Como vimos, quando um deus, ou uma pessoa, era representado sentado, as mãos ficavam sobre os joelhos. Na iconografia sagrada, Anúbis, deus da morte e dos ritos funerários, tinha cabeça de chacal; Horus, deus dos céus, uma cabeça de falcão. As representações foram cuidadosamente observadas ao longo de 3 milênios, com poucas modificações.

A cerâmica e o artesanato com pedras ocupou os egípcios ao longo dos tempos. Conheciam a fabricação da cerâmica, embora suas técnicas fossem muito inferiores a outras civilizações asiáticas, sobretudo a chinesa. Usavam uma pedra macia, semelhante àquela conhecida no Brasil como pedra-sabão (utilizada nos trabalhos de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho). Utilizaram esmaltes, com o que recobriam as cerâmicas. Para acompanhar os mortos, colocavam na sepultura cones de barro, do tamanho de um palmo, com inscrições sobre os falecidos, como seus nomes, profissões e títulos.

VIDRO. Não está definitivamente confirmada a cultura onde, pela primeira vez, surgiu o vidro. Pode ter sido uma descoberta fortuita, por acaso, ou foi fruto de alguma pesquisa científica? A história do vidro (como a da cerâmica) se confunde com a própria civilização. O historiador romano Plínio-o-Velho (Gaius Plinius Secundos, 23 AC-79 DC) localizou a invenção na costa da Fenícia, hoje Líbano, onde existiram fábricas de vidro já em épocas remotas. Mas como os fenícios eram, antes de tudo, um povo de mercadores e empreendedores, provavelmente terão importado a novidade de outra região do Oriente Médio.

Vidro: peitoral do faraó Tutankhamon
Vidro: peitoral do faraó Tutankhamon

O certo é que a arte do vidro já era cultivada pelos egípcios à volta do século 5º antes da nossa era. Obtido a partir da mistura de areia e sílica, soda e limão cozidos a alta temperatura, junto com pigmentos derivados de malaquita e cobre, o vidro era utilizado tanto em objetos do cotidiano, como em adornos, ushabtis, joias e amuletos. Algumas referências históricas situam a revolução tecnológica que deu origem ao vidro soprado em torno do século 1º AC na região da Síria, de onde foi levado para a cidade de Alexandria, no Egito, cem anos mais tarde.

Principais museus
No Brasil existem algumas obras de arte egípcias no Museu Nacional, Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro (colecionadas durante o Império, por iniciativa de Dom Pedro II).

Alemanha
Ägyptisches Museum der Staatlichen Museen, Berlim
Staatliche Sammlung ägyptischer Kunst, Munique

Áustria
Kunsthistoriches Museum Ägyptisch-Orientalische Sammlungen, Viena

Dinamarca
Ny Carlsberg Glyptotek, Copenhague

Egito
Museu do Cairo
Museu de Arte Egípcia Antiga, Luxor

Estados Unidos
Brooklyn Museum, Brooklyn, Nova York
The Metropolitan Museum of Art, Nova York
Field Museum of Natural History, Chicago
Museum of Fine Arts, Boston
The Cleveland Museum of Art, Cleveland

França
Museu do Louvre, Paris
Musée Borély, Marseille
Musée Calvet, Avignon
Musée des Beaux Arts, Grenoble

Grã-Bretanha
Ashmolean Museum, Oxford
Museu Britânico, Londres
Fitzwilliam Museum, Cambridge
University College, Londres

Holanda
Rijksmuseum, Leyde

Itália
Soprintendeza per le Antichità Egizie, Torino

Rússia
Museu Hermitage, São Petesburgo
Museu de Belas Artes Pouchkine, Moscou

Fontes de estudo
Em português
HINDLEY, Geoffrey, O Grande Livro da Arte - Tesouros artísticos dos Mundo, Verbo, Lisboa/São Paulo, 1982
JANSON, H. W., História da Arte, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1992, ISBN 972-31-0498-9
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_do_Antigo_Egito
http://camilabuenodesign.wordpress.com/tag/estilo-egipcio-na-decoracao/
http://www.slideshare.net/GeraldoMellado/histria-da-arte-arte-egipcia

Em espanhol
http://www.arteespana.com/arteegipcio.htm
http://es.wikipedia.org/wiki/Arte_del_Antiguo_Egipto
http://es.wikipedia.org/wiki/Antiguo_Egipto

Em inglês
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- HART, George. The British Museum Pocket Dictionary of Ancient Egyptian Gods and Goddesses. British Museum Press, 2001.
- MCDONALD, Angela. The Ancient Egyptians: Their Lives and Their World. Published by The British Museum Press, 2008.
- MILLARD, Anne. The Egyptians (Peoples of the past). London: MacDonald & Company, 1975.
- MORLEY, Jacqueline; SALARIYA, David. How Would You Survive As an Ancient Egyptian?.  London: Orchard/Watts Group, 1999.
- SHAW, Ian. The Oxford Illustrated History of Ancient Egypt. Oxford: Oxford University Press, 2000.
- http://www.reshafim.org.il/ad/egypt/
- http://www.reshafim.org.il/ad/egypt/glossary.htm
- https://www.khanacademy.org/humanities/art-history/art-history-400-c-e--ancient-cultures-1/ancient-egypt/a/egyptian-art
-http://arthistoryresources.net/ARTHegypt.html

Em francês
http://mythologica.fr/egypte/art/
http://fr.wikipedia.org/wiki/%C3%89clectisme_%C3%A9gyptien
http://www.larousse.fr/encyclopedie/divers/%C3%89gypte_histoire_de_l%C3%89gypte_ancienne_
et_pr%C3%A9islamique/187008

Em alemão
CENIVAL, Jean-Louis de, Ägypten, Das Zeitalter der Pharaonen, Bruckmann, München, 1964
KOEPF, Hans; BINDING, Günther (Überarbeitung), Bildwörterbuch der Architektur, Alfred Kröner Verlag, Stuttgart, 1999, ISBN 3-520-19403-1
ZORN, Olivia, Wie erkenne ich? Die Kunst der Ägypter, Belser Verlag, Stuttgart, 2004, ISBN 3-7630-2421-2
http://de.wikipedia.org/wiki/Altes_%C3%84gypten
http://www.aegypteninfo.de/kunst.htm

Em italiano
http://it.wikipedia.org/wiki/Antico_Egitto
http://it.wikipedia.org/wiki/Arte_egizia