MANEIRISMO

Raul Mendes Silva

ANTES DO MANEIRISMO

O estilo maneirista surgiu em Itália, no seio da cultura mais ampla do Renascimento clássico e, a partir dessa época, se espalhou por toda a Europa e pelas Américas.
Aqui abordamos o movimento dentro das artes visuais, não analisando seus reflexos na literatura ou na música.

Os artistas italianos do Trecento (1300-1399) e do Quattrocento (1400-1499) dispunham de informações técnicas, estéticas e matemáticas (como os dados sobre  pigmentos, os estudos anatômicos do corpo humano e a perspectiva) que lhes permitiram aperfeiçoar as representações da natureza com uma fidelidade sem precedentes, levada ao virtuosismo. De posse destes conhecimentos sobre o mundo visível, partiram para a representação de um mundo idealizado. O seu afastamento do naturalismo foi uma opção estética.

Observação: além dos estudos da perspectiva, durante séculos os artistas recorreram a procedimentos técnicos para aperfeiçoar seus desenhos e pinturas, entre os quais a “câmera escura” (em latim camera obscura). Esta câmara não é aquela que se utiliza para revelar fotografias. Conhecida e utilizada desde a antiguidade, consistia em um pequeno local às escuras, com apenas um orifício para receber as imagens do exterior, as quais se refletiam, invertidas, em uma superfície clara, na parece oposta à do orifício. Já antes do século 16 diversos artistas se serviam deste processo, fixando um papel numa parede, para nele copiarem as imagens da realidade, ali refletidas através do orifício.

Entretanto, em anos recentes, pesquisadores da luz e dos fenômenos da visão ficaram intrigados com algumas discrepâncias. Em trabalhos de grandes artistas do renascimento e da escola flamenga, certas cores aparecem esmaecidas e os traços estão estranhamente fora de perspectiva, o que seria inadmissível em grandes mestres. Sabendo-se que a partir do século 15 já existiam espelhos (côncavos e convexos) e lentes poderosas,  foi possível a esses pesquisadores reconstituirem em quadros clássicos as provas da utilização desses processos mecânicos, que davam às cenas maior fidelidade na reprodução do mundo real. 

Obviamente, estas circunstâncias não retiram qualquer valor a obras de pintores como Van Eick, Caravaggio ou Vermeer, apenas explicam alguns detalhes insólitos na construção das cenas.

Uma grande referência do classicismo renascentista no seu período de esplendor é Raphael Sanzio (1483-1520) com uma obra que se adequava ao espírito dos humanistas. Sua obra apresenta uma simplicidade calma, porém grandiosa e monumental. Em suas pinturas, a técnica ilusionística do trompe-l’œil nos transporta para o exterior, para o infinito. É uma celebração da vitória, numa visão otimista da natureza humana, da verdade e do saber triunfante.

- Trompe l’oeil  é uma locução francesa que significa, literalmente, “enganar o olho”. É um expediente utilizado pelo artista (desenhista, pintor, escultor, arquiteto) para iludir, enganar a visão, criando sensação de profundidade e jogo de volumes. No caso das pinturas com esta técnica, por vezes utilizada em tetos ou em paredes cegas, as imagens (bidimensionais) são percebidas pelo observador como se tivessem três dimensões.


Raphael Sanzio, A Escola de Atenas, (1509-1510) afresco que decora a Stanza
dele Segnatura, no Vaticano.
O mundo do Renascimento clássico, numa cena de equilíbrio, harmonia e paz,
proporcionadas pelo saber e pela razão.


O Juizo final, Michelângelo, 1537-1541, Capela Sistina, Vaticano.
O gosto maneirista já é manifesto nesta obra grandiosa.

 

Outra grande menção ao classicismo da época vai, certamente, para Michelângelo (1475-1564). Em seu trabalho incessante de pintor e escultor deixou uma obra incomparável, dividida sobretudo entre Florença e Roma. Seu Davi, cujo original se encontra hoje na Academia de Belas Artes de Florença,é o símbolo grandioso da beleza e do poder do ser humano. Todavia, o mestre viveu o suficiente para observar os efeitos que as crises provocaram nas artes, a partir de 1520. O mundo da época da sua maturidade não era mais aquele da suprema sabedoria humanística e da razão, mas sim um torvelinho de emoções pessoais e sociais, frustrações e dúvidas, terreno propício para o maneirismo.

Leonardo da Vinci, uma terceira grande referência a esse saber artístico ligado ao humanismo, criou uma obra ímpar, incursionando com a mesma genialidade pelas artes e pelas ciências.

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Os humanistas acreditavam que no Renascimento revivia a antiga paz clássica de Grécia e Roma, uma harmonia social restaurada, fundada no respeito às leis e à ordem, livre da barbárie. Na filosofia prevaleciam a razão, a perfeição e a sabedoria, que levariam à felicidade; para os artistas, a beleza, a sensualidade tranquila e a doçura eram os atributos femininos a alcançar; e nos homens a força e a virilidade, curiosamente num cenário artístico com tanta permissibilidade e tolerância em relação ao homossexualismo.

O escritor francês François Rabelais (1494-1553) assim descreveu o ambiente daquele tempo nos meios europeus intelectualizados “... em toda a parte se encontram pessoas sábias, mestres ilustres, bibliotecas muito espaçosas, de tal maneira que acho que nem nos tempos de Platão, Cícero ou Papiniano havia tal acesso aos estudos, como hoje... Os arruaceiros, os aventureiros e os carroceiros de agora têm mais estudos que os professores e pregadores do meu tempo...” (Pantagruel, 1532, carta de Gargantua a Pantagruel).

Este mundo de aparente calma, soberano, sobranceiro e algo arrogante, assistiu então a um “desvio” das virtudes clássicas. Junto com dramáticas convulsões sociais, chegava o tempo do maneirismo.

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No término do século 15 e início do seguinte, a estrutura política e social da Itália encontrava-se desmantelada, com o território ocupado por forças espanholas, alemãs e francesas. Naquele período, em plena desordem pública, Roma foi invadida e saqueada, obrigando milhares de pessoas, entre as quais grande contingente de artistas, a debandar para outras regiões e países.

O saque de Roma ocorreu no dia 6 de maio de 1527 e assinalou o final do Renascimento em termos políticos. O papa Clemente VII havia declarado seu apoio às tropas francesas contra o exército do Sacro Império Romano-Germânico (soldados italianos, alemães e espanhóis) contudo, os aliados do papa foram derrotados. Sem recursos financeiros para pagar os seus 34 mil militares, Carlos III de Bourbon, comandante das forças do Império, autorizou o saque de Roma e o massacre da população. Como a maioria dos militares vencedores era de protestantes luteranos, o triunfo ficou timbrado com conotação religiosa.

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A Reforma protestante ferira gravemente o Papado e o Catolicismo. A Igreja católica, procurando recuperar o tempo e o terreno perdidos, organizou a Contrarreforma, colocando seu jugo impiedoso sobre o clero corrupto e atacando a libertinagem desenfreada. O instrumento poderoso a que recorreu foi o Concílio de Trento (1545 a 1563). Os exageros maneiristas ficaram na mira dos teólogos e dos censores, que exigiram contenção aos artistas, indicando autoritariamente os rumos estéticos, inclusive recomendando quais os personagens e atitudes que deveriam ser representados nas obras de arte. Paralelamente, em outras partes da Europa, o Calvinismo e o Luteranismo levantavam mil exigências e limitações, e demonstravam evidente animosidade contra as artes.

No campo da economia, outras nações europeias que não a Itália, se beneficiavam da mudança de rotas comerciais do Mediterrâneo para o Atlântico. As indústrias se organizavam e surgiam companhias comerciais poderosas, dedicadas ao transporte e comercialização de mercadorias, que aportavam de paragens distantes. Felizmente para os artistas, as regras de censura eram endereçadas em especial aos temas religiosos, deixando mais liberdade para os assuntos profanos.

 


PINTURA

Os pintores maneiristas prestaram toda a atenção aos contrastes de luzes e sombras, que davam volumes insólitos aos objetos e às pessoas. Estas exibem frequentemente expressões tristes e desoladas, todavia vestindo-se de maneira rica e exuberante. Na arte clássica, as figuras mais importantes ocupavam seu lugar de destaque na composição. Nos maneiristas, os protagonistas estão dispersos nas grandes superfícies  das pinturas, por vezes em pontos insólitos. Os gestos e posições são também são inesperados, tudo contribuindo para uma tensão permanente no cenário e nas personagens.


Parmigiano (italiano), A Madona do pescoço comprido,
Galeria dos Uffizi, Florença


Jacomo da Pontormo (italiano), retrato de um alabardeiro,
1535-1540, Paul Getty Museum, Los Angeles


Rosso Fiorentino (italiano), Baco, Vênus e Amore, 1531-1532


Bartholomeus Spranger (holandês), Vênus e Adonis, 1595-1597,
Kunsthistoriches Museum, Viena.


François Clouet (francês) O banho de Diana, Museu de Belas Artes, Rouen


Ticiano (italiano), Bacanal, 1533-1524, Museu do Prado


El Greco (grego, com formação  na Espanha) A
Santíssima Trindade, 1577-1579, Museu do Prado


Maneirismo na École de Fontainebleau: Toussaint
Dubreuil (francês) Subida do Calvário

 

ARQUITETURA

Alguns nomes ligados à arquitetura maneirista são: Giorgio Vasari (1511-1574), que trabalhou com Michelângelo em Roma, autor dos afrescos no Palácio Cornaro;  Palladio (1508-1580) que seguiu e ampliou os conhecimentos de Vitrúvio (este simbolizava, na arquitetura, a herança clássica grecorromana).  Palladio trabalhou em Veneza, nas igrejas de Il Redentore e San Giorgio Maggiore , além de assinar diversos projetos de palácios particulares. Embora não tenha sido um maneirista, sua obra influenciou todo o período e se estendeu aos arquitetos barrocos de toda a Europa; Bartolomeo Ammanati, que foi autor de projetos em toda a Itália, tendo realizado em Florença a fonte da Piazza della Signoria.


Arquitetura maneirista, construção entre 1517-1520, jardins e loggia de Raphael (italiano)
Villa Madama (o nome se refere a Margarida de Parma, 1522-1583).


Arquitetura maneirista. Giulio Romano (italiano) Pallazo Té, Mântua, Itália,
construído entre 1526 e 1534.


Arquitetura maneirista. Piazza del Campidoglio, Roma, projeto de Michelângelo
(italiano) de 1536.
Ao centro, a estátua equestre de do imperador romano Marco Aurélio
(foto Wikicommons).


Arquitetura maneirista. A escada real, Villa Farnèse, em Caprarola
(não confundir com Palazzo Farnèse, de Roma).
Projeto de Antonio da Sangallo e Baldassare Peruzzi (italianos). Foto Wikicommons.

 

Os arquitetos maneiristas serviram a famílias poderosas, projetando palácios e mansões. A rigidez dos planos renascentistas deu lugar a maior atenção aos jogos de luzes e sombras. Os interiores foram enriquecidos com abóbadas e afrescos. Por sua vez, as igrejas passaram a ter iluminações de ângulos diversos, que valorizavam a penumbra das naves, com escadarias caprichosas. Os altares ganharam decorações com abundância de motivos, que iam das conchas às guirlandas, prenunciando o gosto barroco.


ESCULTURA

Os escultores maneiristas se interessaram pela representação de grupos, onde as pessoas se apresentam em estranhas posições, com membros alongados em busca de um frágil equilíbrio. Há uma procura incessante pela graciosidade e leveza, com todo o grupo repousando sobre uma base estreita, havendo detalhes explorados até às minúcias.


Lacoonte e seus filhos, hoje no Museu do Vaticano, é uma obra da cultura
helenística, realizada cerca de 200 AC.
Foi descoberta em Roma, onde estava soterrada,  em 1506, e influenciou
Michelangelo e os maneiristas. (Foto Wikicommons).


Escultura maneirista. Bartolomeu Ammannati (italiano)
Fonte de Neptuno, Piazza Della Signoria, Florença.


Escultura maneirista. Pierre de Franqueville (francês)
Cosimo I de Médici, Piazza dei cavalieri, Piza.


Escultura maneirista. Giambologna (flamengo)
O rapto da sabina, 1582, Florença.


Escultura Maneirista, Adriaen de Vries (holandês)
Cristo na coluna, Museu de Varsóvia, 1604.

 

O MANEIRISMO DENTRO DO RENASCIMENTO ITALIANO

O maneirismo é hoje apreciado como um movimento das artes praticamente autônomo, mas nem sempre foi assim. Até o final do século 19 e o início do seguinte, o maneirismo era olhado como um momento estético intermediário entre o renascimento e o barroco. A origem da designação vem do italiano maniera, que significa “à maneira de”, ou seja, um estilo próprio, peculiar, de abordar o universo estético. Em termos amplos, era mesmo um modo de estar no mundo. O vocábulo chegou ao português através do francês Maneirisme; naqueles idiomas que seguiram a palavra italiana, o resultado foi Manierismo. Em inglês também ficou conhecido como Style Manière.

Antes de procurar uma definição, vamos encontrar o caminho histórico deste estilo e buscar seu contexto artístico e social.

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Da mesma forma que aconteceu com o termo barroco, a conotação pejorativa do maneirismo perdurou por séculos. Para a maioria dos críticos, ao longo de tantos anos, enquanto a arte clássica (Grécia, Roma e Renascimento) seria a expressão do equilíbrio, da suprema simplicidade e “respeito” à natureza, o maneirismo estaria enfermo de artificialismo, de afetação e de uma visão “complicada” do objeto artístico, que em nada contribuía para a sua “missão” como patrimônio comum da humanidade. As aspas indicam o caráter ideológico que geralmente contamina as análises estéticas.

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O movimento foi situado cronologicamente em torno do ano 1520 na Itália, prolongando-se até cerca de 1610. Como se mencionou, em 1527 verificou-se um trágico saque de Roma, que balizou o final do Renascimento e um suposto início simbólico do maneirismo italiano. Para os historiadores, de um modo geral, durante o período renascentista de Rafael Sanzio e da primeira fase de Michelangelo, conhecido como “Alto Renascimento”, as artes haviam atingido seu cume, manifestando sua racionalidade, clareza de mensagem, harmonia, equilíbrio, simplicidade e moderação. Afastados destes mandamentos canônicos, os artistas do maneirismo teriam incorrido em decadência, enveredando pela afetação e gratuidade.

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O italiano Giorgio Vasari (1511-1574) natural de Arezzo, Itália, foi um dos primeiros teóricos a abordar uma possível explicitação do Maneirismo, em um dos seus escritos mais célebres, Le Vite dei più eccellenti pittori, scultori e architettori (As vidas dos melhores pintores, escultores e arquitetos) dedicado a mais de 200 artistas, seus contemporâneos e do passado. A obra foi divulgada em Florença em 1550, recebendo uma edição ampliada em 1568, sendo desde então considerada um marco na história da arte.


Vasari conhecia pessoalmente alguns dos artistas e associou o maneirismo às virtudes de leveza, bom gosto, encanto e originalidade. Ainda não se detectava, então, qualquer avaliação negativa daquele estilo.


Porém, em 1662, o francês Roland Fréart de Chambray (1606-1676), em sua obra Idée de la perfection de la peinture (Idéia da perfeição da pintura) censurou os artistas que exageravam na exuberância anatômica das figuras, sobretudo na musculatura masculina. Neste livro foi utilizado, pela primeira vez, o termo “maneirista” como adjetivo, e com sentido depreciativo.


O romano Giovanni Pietro Bellori (1613 -1696) foi autor de Le vite de' pittori, scultori et architetti moderni (As vidas dos pintores, escultores e arquitetos modernos) surgido em 1672 e dedicada a mestres barrocos. Esta obra era antecedida de um prefácio intitulado O ideal em Arte, texto que Bellori já havia apresentado, em 1664, à Academia de Belas Artes de Roma. Para o autor, com a morte de Rafael e Michelangelo, o ideal artístico do Renascimento tinha desaparecido, porém ressurgira com Annibale Carracci e sua escola. Data deste período a discussão com os “caravaggistas”, sobre qual a primazia que o artista deveria escolher, representar o natural ou o ideal? Bellori advogava a última opção.

Posteriormente, em 1792, Luigi Lanzi (1732-1810) florentino, no livro Storia Pittorica dell'Italia, (História da pintura na Itália), publicado no período 1792-1796,igualmente se referiu de forma negativa aos “maneiristas”.

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Na verdade, as críticas negativas que foram depois endereçadas ao barroco repercutiram na visão histórica que havia sobre o maneirismo, ressaltando principalmente o caráter supostamente afetado destes dois movimentos. Entretanto, em pleno século 20, análises da arte moderna passaram a enxergar no manerismo principalmente as suas virtudes: a libertação de cânones, a revolta contra a sobriedade excessiva, a recusa da submissão às regras renascentistas e grecorromanas. Segundo esses estudos, o estilo maneirista estaria mais próximo da arte do século 20 que o próprio classicismo. Não esqueçamos que, no início deste último século, a difusão das doutrinas de Freud e os avanços da psicanálise derrubaram o mito do ser humano equilibrado e sereno, acima das emoções, abrindo caminhos para o dadaísmo, o expressionismo e o surrealismo.

Sob esta ótica, um historiador húngaro contemporâneo, Arnold Hauser (1892-1978) escreveu Maneirismo: A crise da Renascença e o Surgimento da arte moderna (São Paulo, Pespectiva, 1976) reavaliando e revalorizando o maneirismo, mostrando que ele correspondia ao padrão das elites cortesãs do século 16: ”... Os pintores palacianos de todos os príncipes connoisseurs dessa época – Cosimo I, de Florença; Francisco I, de Fontainebleau; Felipe II, de Madri; Rodolfo II, de Praga; Alberto V, de Munique – eram maneiristas...Os quadros que os príncipes mandavam pintar eram, em sua maioria, destinados não a exposição ao público, mas para serem admirados de maneira particular, ou em pequenos círculos íntimos. O objetivo principal desses quadros era proporcionar prazer estético...” Tratava-se, portanto, de um estilo palaciano, ao gosto das elites intelectuais e não de um movimento de importância secundária, à margem do poder.

Para Hauser, uma vez contextualizado o maneirismo em sua realidade histórica, econômica e política, confirma-se que teve uma função salutar rompendo e ultrapassando, com seus supostos excessos, a falsa harmonia social do Renascimento tardio. Este, sim, surgia como uma construção artificial, dissociada da realidade, enquanto o maneirismo desempenhava seu papel humanizador, subjetivista, inovador, brado de protesto contra as referências do classicismo, o qual perigava se aniquilar numa beleza dissociada de conteúdo humano.

Deve sublinhar-se que, destacando o papel do maneirismo, Hauser seguiu a trilha de outros críticos, como Alois Riegl (austríaco, 1858-1905); Walter Friedländer (alemão, 1873-1966); Max Dvorák (austríaco, 1874-1921) e Nikolaus Pevsner (alemão, 1902-1983).

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Além disso, o maneirismo não significou uma ruptura com o classicismo. Características maneiristas já existiam nos próprios mestres Rafael e Michelângelo; no século 15, Mantegna, Andréa Del Sarto e Donatello igualmente apresentaram “maneirismos”. E, logo depois, o barroco iria mesclar-se tanto a elementos renascentistas como maneiristas.

 

PERÍODOS DO MANEIRISMO

Os historiadores vêm no movimento maneirista duas fases. A primeira teria se verificado a partir do saque de Roma (1527) prolongando-se até o meio desse século e provocando o êxodo de numerosos profissionais, que se espalharam por toda a Europa, originando centros de irradiação artística em vários países, porém conservando ainda as características iniciais. Os artistas deste grupo não utilizavam a perspectiva, mostravam figuras alongadas e abusavam dos contrastes cromáticos e de composição. Nesse período podem citar-se os florentinos Fiorentino Rosso (1494 -1540) e Pontormo (1494 -1557) e Parmigianino (1503-1540), que operou principalmente no norte do país.

Num segundo período, conhecido como “Alto Maneirismo”, quando o movimento já era aceito e reconhecido, os artistas acentuaram suas marcas pessoais em cada obra, aprofundando o virtuosismo e a visão intelectualizada. Por volta de 1580, grandes mestres, nomeadamente Vasari, Annibale Carracci e Caravaggio, fizeram um percurso de volta ao naturalismo de Raphael. As obras refletiam então fortes emoções, uma espiritualidade conturbada, enquanto tecnicamente se desenhavam contornos mais firmes, que expunham as tensões dos personagens, muito distantes da harmonia do classicismo renascentista e mais perto do barroco, que viria logo depois.

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ARTISTAS DO MANEIRISMO

Num rápido balanço dos artistas maneiristas, sem intenção de mostrar uma lista mais completa, podemos citar:
- na Itália - Giorgio Vasari, Palladio, Jacopo da Pontormo, Rosso Fiorentino, Michelangelo em sua fase madura, Parmigianino, Francesco Salviati, Giulio Romano, Beccafumi, Agnolo Bronzino, Alessandro Allori, Jacopo del Conte, Federico Barocci, Jacopo Tintoretto, Ticiano, Giuseppe Arcimboldo, Veronese; Bartolomeo Ammanati, Giambologna.
- na França - François Clouet e Jean Clouet e os integrantes da Escola de Fontainebleau;
- no Norte da Europa - Bartholomäus Spranger, Marten de Vos, Cornelis van Haarlem e Joachim Wtewael;
- na Inglaterra - William Segar, William Scrots e Nicholas Hilliard;
- na Espanha - El Greco e Luis de Morales;
- em Portugal - Diogo de Contreiras,  “O mestre de Abrantes”, Gaspar Dias, António Nogueira e Grão Vasco em Portugal.


William Segar (inglês), Retrato de Robert Devereux, 1590.


Agnolo Bronzino (italiano) Alegoria aos triunfos de Vênus,
1540-1545, National Gallery, Londres.


Vasco Fernandes (Grão Vasco, português), Martírio de São Sebastião,
Museu Grão Vasco, Vizeu, Portugal.


Tintoretto (italiano) A última ceia, 1594.


Paolo Veronese, Lucrécia, 1580-1583, Kunsthistoriches Museum, Viena.

REFERÊNCIAS NESTE SITE

O maneirismo, através de sua influência no barroco, é visível em muitas obras do período colonial brasileiro. Ver, em: www.brasilartesenciclopedias.com.br / em TEMAS DAS ARTES:
Aleijadinho; Bahia, Arte Colonial; Pernambuco, Arte Colonial; Rio de Janeiro, Arte Colonial; São Paulo, Arte Colonial.

Como verbetes de apoio ao estudo do maneirismo consultar nesse mesmo site, em DICIONÁRIO DE ARTE INTERNACIONAL:
Barroco; Claroescuro; Classicismo; Fontainebleau; Helenística; Renascimento